
País construiu uma das estruturas produtivas mais diversificadas do mundo em desenvolvimento, mas perdeu espaço em manufaturas, tecnologia e cadeias de fornecedores. Recuperação exige mais do que subsídios: estabilidade, investimento, inovação, educação técnica, infraestrutura e metas industriais verificáveis
Em 1985, a indústria brasileira vivia o ponto culminante de um processo de transformação iniciado décadas antes. O país produzia automóveis, aviões, navios, aço, máquinas, equipamentos elétricos, produtos químicos, combustíveis, eletrodomésticos e bens de consumo duráveis. A participação do conjunto das atividades industriais havia alcançado aproximadamente 48% do Produto Interno Bruto.
Quase quatro décadas depois, em 2024, essa parcela estava reduzida a 24,7% do PIB. A diferença de 23,3 pontos percentuais significa que o peso relativo da indústria na economia caiu praticamente pela metade. Os dados são da Confederação Nacional da Indústria, que acompanha a participação setorial com base nas contas nacionais.
A retração não significa que todas as fábricas desapareceram ou que o Brasil deixou de produzir bens industriais. A economia e a produção cresceram em valores absolutos durante o período. O que ocorreu foi uma perda relativa de importância, acompanhada pela redução da densidade de determinadas cadeias produtivas, pela maior dependência de componentes importados e pela especialização em segmentos associados a recursos naturais.
O resultado é uma indústria ainda grande e diversificada, mas menos capaz de comandar o crescimento, difundir tecnologia e sustentar uma presença internacional compatível com o tamanho da economia brasileira.
O que está incluído nos 48% e nos 24,7%
A comparação exige uma distinção importante. Os percentuais referem-se à indústria total, que inclui quatro grandes conjuntos de atividades:
-indústria de transformação;
-indústria extrativa, como mineração e petróleo;
-eletricidade, gás, água, saneamento e gestão de resíduos;
-construção civil.
Portanto, os 48% registrados em 1985 não correspondiam exclusivamente às fábricas de automóveis, máquinas, produtos químicos ou eletroeletrônicos.
Em 2024, somente a indústria de transformação representava 14,4% do PIB, empregava aproximadamente 7,8 milhões de trabalhadores formais e respondia por 62,4% dos investimentos empresariais em pesquisa e desenvolvimento. A indústria total, ao incluir construção, extração mineral e serviços industriais de utilidade pública, alcançava os 24,7%.
As comparações históricas também são afetadas por mudanças metodológicas, revisões das contas nacionais e variações dos preços relativos. O IEDI registrou, por exemplo, que uma mudança no ano de referência das contas nacionais reduziu a participação calculada da indústria em 2005 de 37,9%, na série antiga, para 30,3% na nova série. Isso ajuda a explicar por que diferentes estudos apresentam valores distintos para o pico da indústria de transformação em 1985.
A magnitude exata varia conforme a série utilizada, mas a direção é inequívoca: a indústria perdeu peso de forma intensa e persistente desde meados da década de 1980.
Como o Brasil construiu uma indústria quase completa
A industrialização brasileira foi resultado de uma estratégia de longo prazo baseada na substituição de importações, no investimento público, na proteção temporária do mercado interno e na atração de empresas estrangeiras.
O processo ganhou força depois da crise mundial de 1929, quando a dificuldade de importar produtos estimulou a produção nacional. Nas décadas seguintes, o Estado criou ou fortaleceu empresas em setores considerados fundamentais, como siderurgia, petróleo, mineração, energia e química.
A partir dos anos 1950, o Plano de Metas acelerou a instalação das indústrias automobilística, elétrica, mecânica e de bens duráveis. O BNDE — posteriormente BNDES — financiou infraestrutura, máquinas, insumos básicos e projetos industriais que exigiam capital elevado e prazos de maturação longos.
Na década de 1970, o II Plano Nacional de Desenvolvimento procurou completar as cadeias de bens de capital e insumos básicos. Foram apoiados projetos em siderurgia, petroquímica, fertilizantes, metais não ferrosos, celulose, equipamentos pesados e geração de energia.
Esse modelo teve custos. A proteção prolongada reduziu a pressão competitiva em alguns segmentos, produtos nacionais podiam ser caros e o sistema dependia de crédito público, controle das importações e planejamento governamental.
Mas também criou uma estrutura industrial que poucos países de renda média possuíam. O Brasil desenvolveu empresas, centros tecnológicos, escolas de engenharia, fornecedores de peças, fabricantes de máquinas e uma força de trabalho industrial numerosa.
Entre 1967 e 1980, o produto real da indústria de transformação mais do que triplicou. O país deixou de ser essencialmente um exportador de produtos agrícolas e passou a produzir praticamente todas as categorias industriais presentes nas economias desenvolvidas.
A crise dos anos 1980 interrompeu o ciclo
O ápice industrial coincidiu com o esgotamento do modelo que havia sustentado sua expansão.
O segundo choque do petróleo, a elevação dos juros internacionais e a crise da dívida externa atingiram uma economia dependente de financiamento estrangeiro. O governo reduziu investimentos, empresas adiaram projetos e a inflação acelerou.
Durante a década de 1980, a produção industrial apresentou queda média próxima de 2% ao ano, desempenho muito inferior ao observado no pós-guerra. Em vez de modernizar máquinas, desenvolver produtos e ampliar capacidade, grande parte das empresas concentrou esforços na sobrevivência em um ambiente de inflação, instabilidade cambial e baixo crescimento.
A indústria chegou a 1985 com grande peso no PIB, mas também com equipamentos envelhecidos, produtividade desigual, dependência tecnológica e dificuldade de financiamento. O percentual elevado refletia a estrutura produtiva construída nas décadas anteriores, não necessariamente uma posição sustentável diante das mudanças que começavam a ocorrer na economia mundial.
A abertura comercial trouxe modernização e perdas
No início da década de 1990, o Brasil reduziu tarifas e barreiras às importações em ritmo acelerado. A abertura expôs empresas nacionais à concorrência de produtos estrangeiros depois de décadas de mercado protegido.
Parte da indústria reagiu com modernização. Empresas importaram máquinas, reduziram estoques, reorganizaram linhas de produção, eliminaram atividades ineficientes e elevaram a produtividade. Estudos do BNDES identificaram ganhos de eficiência e competitividade em vários segmentos.
Mas o choque também provocou fechamento de empresas, redução do emprego e substituição de fornecedores nacionais por componentes importados. Cadeias que antes eram quase totalmente produzidas no país passaram a depender mais do exterior.
Uma análise publicada pelo BNDES concluiu que a abertura não agiu isoladamente. A combinação entre concorrência externa, baixo dinamismo do mercado interno e investimento insuficiente estimulou uma especialização passiva: cresceram principalmente setores com capacidade exportadora ou menos expostos às importações, enquanto atividades tecnologicamente mais complexas perderam espaço.
A abertura era necessária para romper a acomodação criada pela proteção excessiva. O problema foi realizá-la sem um conjunto suficientemente forte e duradouro de políticas de inovação, crédito, infraestrutura, qualificação e inserção internacional.
A estabilização não foi acompanhada por um novo projeto produtivo
O Plano Real encerrou a hiperinflação e criou condições indispensáveis para o planejamento empresarial. Ao mesmo tempo, durante diferentes períodos, juros elevados e valorização cambial baratearam produtos importados e tornaram a produção brasileira menos competitiva.
A indústria passou a enfrentar uma combinação difícil: crédito caro, carga tributária complexa, infraestrutura deficiente e concorrência de países que mantinham políticas industriais, moedas competitivas e financiamento de longo prazo.
A estabilidade monetária resolveu um dos maiores obstáculos da década anterior, mas não foi convertida automaticamente em uma estratégia de modernização industrial.
As políticas setoriais adotadas nas décadas seguintes foram frequentemente alteradas, interrompidas ou substituídas a cada governo. Empresas que planejavam investimentos com retorno em dez ou 20 anos encontravam um ambiente no qual regras tributárias, regimes de incentivo, exigências de conteúdo local e condições de financiamento podiam mudar em poucos exercícios.
Commodities, câmbio e a especialização em recursos naturais
Nos anos 2000, o crescimento da China elevou fortemente a demanda e os preços de minério de ferro, petróleo, soja, carnes e outros produtos nos quais o Brasil possuía vantagens competitivas.
O aumento das exportações gerou divisas, melhorou as contas externas e ajudou a financiar o crescimento do consumo. Entretanto, a entrada de dólares e os juros elevados contribuíram, em alguns períodos, para a valorização do real.
A literatura econômica relaciona a combinação entre exportações de commodities e câmbio valorizado ao risco de “doença holandesa”: atividades baseadas em recursos naturais continuam competitivas, enquanto indústrias sujeitas à concorrência internacional perdem rentabilidade e mercado. Estudos brasileiros encontraram evidências de que a maior participação das commodities nas exportações esteve associada à apreciação cambial e à redução da competitividade de setores manufatureiros.
Isso não significa que o sucesso do agronegócio, da mineração ou do petróleo seja responsável isoladamente pela desindustrialização. Esses setores são produtivos, geram exportações e demandam máquinas, fertilizantes, software, logística e serviços especializados.
O problema aparece quando o país exporta recursos naturais, mas importa parte crescente dos equipamentos, componentes eletrônicos, princípios ativos, produtos químicos, máquinas e sistemas utilizados para produzi-los.
Uma estratégia industrial moderna não deve combater as commodities. Deve utilizar a escala da agricultura, da mineração, da energia e do petróleo para desenvolver máquinas, biotecnologia, química, automação, equipamentos offshore, softwares e materiais de maior valor agregado.
A concorrência chinesa alterou o mercado mundial
A entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001, modificou a estrutura industrial global.
A combinação de mão de obra qualificada, infraestrutura, crédito, escala, fornecedores integrados e políticas governamentais permitiu que a China se tornasse dominante em eletrônicos, máquinas, produtos químicos, equipamentos de telecomunicações, painéis solares, baterias e veículos elétricos.
Para o Brasil, a relação trouxe dois movimentos simultâneos. A China tornou-se o principal comprador de commodities brasileiras e, ao mesmo tempo, um fornecedor crescente de bens manufaturados.
A partir dos anos 2000, a estrutura industrial brasileira tornou-se mais especializada em atividades que já possuíam grande peso, sem avanço equivalente da intensidade tecnológica. Estudos do BNDES identificaram que essa especialização começou na primeira metade da década de 1990 e se aprofundou posteriormente.
A indústria brasileira não perdeu apenas espaço na produção de artigos simples. A regressão atingiu segmentos de média e alta tecnologia, justamente aqueles que concentram pesquisa, engenheiros, patentes e maior potencial de crescimento da produtividade.
O Custo Brasil tornou-se uma desvantagem acumulativa
Produzir no Brasil envolve obstáculos que se reforçam mutuamente.
O sistema tributário anterior à reforma aprovada em 2023 reunia impostos federais, estaduais e municipais com bases parcialmente sobrepostas, créditos incompletos e grande insegurança jurídica. A OCDE avaliou que essa estrutura distorcia decisões de produção, criava litígios e elevava os custos administrativos das empresas.
A infraestrutura também reduz a competitividade. Rodovias em condições inadequadas, malha ferroviária insuficiente e baixa eficiência portuária aumentam o custo de transportar matérias-primas e produtos acabados. No levantamento de competitividade da CNI para 2023–2024, o Brasil ficou na 15ª posição em infraestrutura entre 18 economias analisadas.
O custo do crédito afeta especialmente empresas que precisam financiar máquinas, estoques, pesquisa e exportações. Uma indústria não pode ser modernizada apenas com capital de giro de curto prazo ou empréstimos com taxas incompatíveis com o retorno de projetos de longa maturação.
Somam-se a isso deficiências na educação básica, escassez de técnicos em determinadas especialidades, baixa integração entre universidades e empresas e dificuldades para pequenas companhias incorporarem automação e tecnologia digital.
O resultado apareceu no ranking de competitividade industrial da CNI: o Brasil ficou em último lugar entre 18 países, com desempenho fraco em ambiente econômico, educação, infraestrutura, integração internacional, inovação empresarial e ambiente de negócios. O levantamento é produzido por uma entidade representativa da indústria, mas os gargalos identificados coincidem em grande parte com diagnósticos da OCDE e do Banco Mundial.
A recessão de 2014 a 2016 aprofundou a perda
A crise econômica iniciada em meados da década passada atingiu uma indústria que já apresentava baixo investimento e produtividade estagnada.
A queda da demanda, o endividamento das empresas, a incerteza política e a redução dos investimentos públicos provocaram forte retração em máquinas, construção, automóveis, bens duráveis e outros setores dependentes do crédito.
Entre 2013 e 2023, enquanto a agropecuária cresceu em média 3,3% ao ano e os serviços avançaram 0,8%, a indústria de transformação encolheu 1,8% ao ano.
A perda prolongada de produção possui efeitos que não são recuperados rapidamente. Quando uma fábrica fecha, desaparecem também fornecedores, equipes de engenharia, ferramenteiros, técnicos, laboratórios e relações comerciais acumuladas durante anos.
Reabrir uma unidade não significa reconstruir automaticamente todo o conhecimento que existia ao redor dela.
Por que a perda industrial preocupa
A indústria não é o único setor capaz de gerar produtividade, inovação ou bons empregos. Serviços digitais, finanças, logística, engenharia e pesquisa também podem produzir grande valor.
Mas boa parte desses serviços sofisticados cresce em associação com a atividade industrial. Fábricas demandam software, manutenção, projetos, telecomunicações, transporte, design, certificação e desenvolvimento tecnológico.
Segundo a CNI, cada R$ 1 produzido pela indústria de transformação gera R$ 2,69 na economia brasileira, considerando seus efeitos diretos e indiretos. O segmento também responde por 62,4% do investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento e por 47,6% das exportações brasileiras de bens e serviços.
A perda de densidade industrial reduz a autonomia do país em áreas estratégicas. A pandemia demonstrou a dependência externa de princípios ativos farmacêuticos, equipamentos médicos, componentes eletrônicos e insumos essenciais.
Em setores de defesa, energia, telecomunicações e saúde, a capacidade produtiva também possui dimensão de soberania. Um país pode importar grande parte do que consome em condições normais, mas descobrir sua vulnerabilidade quando há guerra, sanções, pandemia ou interrupção logística.
O crescimento de 2024 não encerrou a desindustrialização
A indústria brasileira teve um ano positivo em 2024. O PIB nacional cresceu 3,4%, a indústria avançou 3,3%, a transformação cresceu 3,8% e a construção aumentou 4,3%. A expansão manufatureira foi favorecida principalmente pelas indústrias automotiva, de equipamentos de transporte, máquinas elétricas, alimentos e móveis.
A taxa de investimento subiu de 16,4% para 17% do PIB. Ainda assim, permaneceu baixa diante das necessidades de infraestrutura, modernização produtiva e transição energética do país.
O desempenho mostrou que existe capacidade de reação quando demanda, crédito e investimento melhoram. Mas um ano de crescimento não reconstrói quatro décadas de perda relativa.
Mesmo depois da recuperação, a participação industrial permaneceu em 24,7%, e a indústria de transformação representava somente 14,4% do PIB.
Recuperar a indústria não significa voltar a 1985
O mundo atual é marcado por inteligência artificial, automação, transição energética, cadeias globais, serviços incorporados aos produtos e competição por tecnologias estratégicas. O objetivo não deve ser maximizar a participação industrial a qualquer custo, mas elevar a produtividade, a complexidade e o conteúdo tecnológico da produção.
Também não seria realista imaginar que o Brasil deva fabricar internamente todos os componentes que consome. Nenhum país moderno é autossuficiente em todas as cadeias.
A prioridade deve ser identificar setores nos quais o Brasil possui mercado, conhecimento, recursos naturais ou necessidades estratégicas capazes de sustentar empresas competitivas.
Estabilidade e crédito de longo prazo
A primeira condição para uma recuperação industrial é um ambiente macroeconômico previsível.
Inflação controlada, responsabilidade fiscal e estabilidade regulatória reduzem o risco e permitem juros estruturalmente menores. O crédito subsidiado pode apoiar inovação e projetos estratégicos, mas não consegue compensar indefinidamente um ambiente no qual o custo geral do capital permanece elevado.
BNDES, Finep, bancos privados e mercado de capitais precisam oferecer instrumentos adequados para inovação, exportações, máquinas, eficiência energética e implantação de fábricas pioneiras.
O Plano Mais Produção, braço financeiro da Nova Indústria Brasil, previa originalmente cerca de R$ 300 bilhões para projetos entre 2023 e 2026. Até maio de 2026, o BNDES informava ter aprovado R$ 287,4 bilhões em operações relacionadas à política, concentradas principalmente em produtividade, exportações, inovação e descarbonização.
O volume de crédito, entretanto, não deve ser a única medida de sucesso. É necessário acompanhar quantas tecnologias foram desenvolvidas, quantos fornecedores nacionais foram qualificados, quanto aumentaram as exportações e qual ganho de produtividade foi obtido.
Concluir a reforma tributária
A implementação da reforma dos tributos sobre o consumo pode representar uma das maiores mudanças estruturais para a indústria.
A substituição do sistema fragmentado por impostos de base ampla, cobrança no destino e créditos financeiros tende a reduzir a tributação em cascata, simplificar cadeias e diminuir disputas entre estados.
A reforma precisa preservar o princípio de não tributar investimentos e exportações e assegurar a devolução rápida de créditos. Uma indústria exportadora não pode carregar impostos domésticos incorporados ao preço de seus produtos.
A transição também exigirá atenção. Sistemas antigos e novos coexistirão durante vários anos, criando o risco de custos adicionais caso regulamentação, tecnologia e administração tributária não estejam coordenadas. A OCDE considera a reforma uma oportunidade para remover distorções que há décadas prejudicam o investimento e o comércio interno.
Transformar infraestrutura em política industrial
Ferrovias, portos, energia, saneamento e telecomunicações não são apenas serviços de apoio. São parte da competitividade industrial.
O Brasil precisa reduzir o custo de transportar um contêiner, aumentar a confiabilidade do fornecimento elétrico, ampliar a capacidade dos portos e oferecer conectividade digital às pequenas e médias empresas.
Concessões privadas, parcerias público-privadas e investimento estatal devem ser combinados de acordo com as características de cada projeto. O fundamental é estabelecer uma carteira de longo prazo, com licenciamento previsível e regras que não sejam alteradas a cada mandato.
A expansão da energia renovável oferece uma vantagem particular. Hidrelétricas, eólicas, solares, biomassa e biocombustíveis podem atrair indústrias interessadas em reduzir emissões e atender às exigências ambientais de seus mercados.
Fazer da descarbonização uma vantagem produtiva
O Brasil possui condições para desenvolver cadeias de aço de baixo carbono, combustíveis sustentáveis de aviação, hidrogênio, biometano, química renovável, baterias, equipamentos eólicos e sistemas de captura de carbono.
A transição verde, contudo, não produzirá industrialização automaticamente. O país poderá limitar-se a exportar minério, eletricidade ou hidrogênio, importando as máquinas e tecnologias utilizadas na cadeia.
A política industrial deve estimular pesquisa, engenharia e fabricação local de equipamentos, sem impor índices de nacionalização artificiais que elevem custos e protejam fornecedores ineficientes.
O apoio pode ser condicionado a metas progressivas de produtividade, exportação, inovação, redução de emissões e formação de fornecedores.
Usar compras públicas com metas verificáveis
O Estado brasileiro compra medicamentos, equipamentos hospitalares, veículos, sistemas de comunicação, material ferroviário, soluções de defesa e produtos para educação e infraestrutura.
Essas encomendas podem criar demanda inicial para novas tecnologias e permitir que empresas alcancem escala. O instrumento é utilizado por grandes economias, especialmente em defesa, saúde, energia e tecnologia.
Mas compras públicas não devem se transformar em reserva permanente de mercado. Contratos precisam estabelecer preço, desempenho, transferência de conhecimento, exportações, prazos e avaliações independentes.
Empresas que recebem apoio devem mostrar resultados. Incentivos sem metas, prazo de encerramento e avaliação podem perpetuar baixa produtividade e transferir custos ao consumidor.
Integrar a indústria brasileira ao comércio mundial
Reindustrialização e abertura comercial não são objetivos incompatíveis.
A indústria precisa importar máquinas, sensores, componentes e tecnologia. Ao mesmo tempo, deve ampliar sua presença no exterior e integrar-se a cadeias internacionais em posições de maior valor agregado.
A redução de tarifas deve ser gradual, previsível e acompanhada por acordos comerciais, financiamento às exportações, infraestrutura e medidas de adaptação para trabalhadores e regiões afetadas.
Abrir unilateralmente um mercado com infraestrutura cara, crédito escasso e tributação complexa pode destruir empresas antes que consigam modernizar-se. Por outro lado, manter proteção indefinida reduz a pressão por produtividade.
A solução é uma abertura negociada e vinculada a uma agenda interna de competitividade.
Reaproximar escolas, universidades e fábricas
A recuperação industrial dependerá da formação de técnicos, engenheiros, programadores, operadores de robôs, soldadores especializados e profissionais de manutenção.
O ensino técnico precisa acompanhar os polos produtivos regionais. Regiões automotivas necessitam de mecatrônica, eletrônica de potência e software embarcado; estaleiros demandam soldagem, tubulação e projeto naval; o agronegócio precisa de automação, drones, máquinas e biotecnologia.
Universidades e institutos de pesquisa devem ser incentivados a trabalhar com empresas sem abandonar a pesquisa básica. Laboratórios compartilhados, bolsas industriais e centros de desenvolvimento podem reduzir a distância entre a produção científica e a inovação comercial.
A formação não termina com o diploma. Trabalhadores precisarão ser requalificados continuamente diante da automação e da inteligência artificial.
Digitalizar as pequenas e médias empresas
A modernização não pode ficar restrita às grandes corporações.
Pequenos fornecedores frequentemente operam com equipamentos antigos, gestão manual, baixo acesso a crédito e pouca capacidade de investir em automação. Como fazem parte das cadeias das grandes empresas, sua baixa produtividade afeta todo o sistema.
Programas de extensão tecnológica podem levar diagnóstico, software, sensores, eficiência energética, treinamento e financiamento a essas empresas.
A Nova Indústria Brasil destinou recursos à transformação digital de micro, pequenas e médias empresas, mas o êxito dependerá de assistência técnica prática e de acompanhamento dos ganhos obtidos, não apenas da compra de máquinas.
Uma política de Estado, não de governo
O Brasil já lançou diferentes políticas industriais nas últimas décadas. Muitas perderam recursos, foram substituídas ou encerradas antes que seus efeitos pudessem ser avaliados.
A recuperação exige continuidade institucional, mas continuidade não significa manter programas ineficientes.
Uma política industrial de Estado deve possuir:
metas públicas e mensuráveis;
horizonte de longo prazo;
avaliações periódicas;
coordenação entre governo, empresas e universidades;
mecanismos para encerrar incentivos que não produzam resultados;
transparência sobre custos e beneficiários;
estímulo à concorrência e à entrada de novas empresas.
As seis missões da Nova Indústria Brasil — agroindústria, saúde, infraestrutura e mobilidade, transformação digital, bioeconomia e defesa — oferecem uma estrutura possível. O desafio é transformar objetivos amplos em projetos capazes de elevar produtividade, exportações e conteúdo tecnológico até 2033.
O país não precisa escolher entre fazenda, mina e fábrica
O debate sobre desindustrialização é frequentemente apresentado como uma disputa entre indústria e agronegócio ou entre manufatura e mineração.
Essa oposição é falsa.
Uma agricultura avançada depende de fertilizantes, defensivos, máquinas, satélites, sensores, genética e software. A exploração de petróleo demanda navios, plataformas, válvulas, equipamentos submarinos e sistemas digitais. A mineração utiliza caminhões autônomos, processamento mineral, engenharia e energia.
O caminho mais promissor é utilizar as vantagens brasileiras em alimentos, minerais, petróleo, biodiversidade e energia para construir cadeias industriais e tecnológicas ao redor delas.
O Brasil não recuperará a indústria tentando proteger toda empresa existente nem esperando que o mercado resolva sozinho gargalos acumulados durante 40 anos.
A reconstrução exigirá uma combinação: estabilidade macroeconômica, concorrência, investimento, planejamento, educação, inovação e cobrança rigorosa de resultados.
A queda de 48% para 24,7% do PIB resume o tamanho da perda relativa. Mas não determina o futuro. O país ainda possui mercado interno, empresas competitivas, universidades, recursos naturais, energia renovável e uma base industrial capaz de sustentar uma nova etapa.
A questão central não é recriar a indústria de 1985. É construir a indústria de que o Brasil precisará em 2035 e 2050.