
Uma equipe de cientistas estudou os efeitos da seca de 2015 nas populações de crustáceos decápodes (camarões, siris e caranguejos; "decápode" quer dizer "com dez pés ou patas") de água doce no sul da Bahia. O tema importa por tratar de espécies muito importantes nos ecossistemas, tanto para o ambiente quanto para as populações ribeirinhas, que usam esses animais como iscas de pesca e alimento. A estiagem forte de 2015, ainda bem lembrada na região, afetou com força os rios e a vida ao redor deles. Outro ponto relevante é a indicação de uma grande variedade de espécies no Sul da Bahia, boa parte delas ainda não descritas na literatura científica.
Os resultados da pesquisa constam do artigo Diversity Patterns of Decapod Crustaceans in Small Coastal Rivers of the Atlantic Forest in Southern Bahia, Brazil, During the El Niño Drought of 2015 (Padrões de diversidade de crustáceos decápodes em pequenos rios costeiros da Mata Atlântica no sul da Bahia, Brasil, durante a seca do El Niño de 2015), publicado na revista científica Diversity (MDPI). O trabalho é assinado por cientistas do Grupo de Pesquisa em Carcinologia e Biodiversidade Aquática (GPCBio), do Centro de Formação em Ciências Agroflorestais da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB): Fabrício Lopes Carvalho, Thaís Arrais Mota, Jadine da Silva Nascimento, Shayanna Oliveira e Rodrigo Espinosa, que além de estar ligado ao GPCBio também atua no Grupo de Biogeografía y Ecología Espacial (BioGeoE2), da Facultad de Ciencias de la Vida, da Universidad Regional Amazónica Ikiam, no Equador. O estudo também está ligado às atividades do Programa de Pós-graduação em Biossistemas (PPG Biossistemas/UFSB).
Contexto do estudo
A pesquisa avaliou ao mesmo tempo o clima, a integridade ambiental e o uso do solo como fatores que interferem nas populações de camarões e caranguejos de água doce. Essa combinação de objetivos e o uso de ferramentas de sensoriamento remoto são escolhas ainda pouco comuns nos estudos com dessas espécies. Crustáceos de água doce são essenciais para a ciclagem de nutrientes, manutenção de fluxo de energia ao longo da cadeia alimentar e para a estrutura das comunidades aquáticas. Além disso, servem como alimento e isca para pesca para as populações ribeirinhas.
Estudos anteriores indicaram que há muitas espécies de crustáceos no Sul da Bahia. No entanto, esses trabalhos são escassos, bem restritos na cobertura de território e observam poucas espécies. Outro fator é que há indícios de espécies ainda não descritas pela ciência, o que reforça o valor biogeográfico da região.
A pesquisa tem diferenciais para o campo da zoologia de crustáceos, em especial para ambientes tropicais de água doce. O primeiro é que poucos estudos avaliam essas comunidades durante e após um El Niño severo, com dados coletados no próprio período de seca. O segundo é a inovação em combinar métodos e técnicas da Carcinologia e de sensoriamento remoto em microbacias. O uso sistemático de imagens LANDSAT para interpretar padrões de diversidade de crustáceos ainda é raro, ainda mais em rios de pequena ordem.
Um terceiro ponto de destaque é a identificação de espécies com potencial bioindicador regional. Isso porque, se uma espécie sempre desaparece em rios degradados, ela pode ser empregada no monitoramento da saúde daquele tipo de ambiente. Por fim, a investigação científica valoriza as microbacias como unidades-chave para conservação. Os rios pequenos são cruciais para a manutenção da diversidade de crustáceos e devem ter prioridade em políticas de conservação.
Como a pesquisa foi feita
A meta da pesquisa foi caracterizar a estrutura das comunidades de crustáceos em cada ponto de coleta de amostras. Essa estrutura é definida pela presença e quantidade de cada espécie em cada ponto geográfico estudado, em rios costeiros de 1ª e 2ª ordem do sul da Bahia. Os cientistas analisaram os efeitos da seca de 2015, intensificada pelo El Niño e compararam as populações nos períodos secos e nos chuvosos. Eles também estudaram a influência do uso e cobertura do solo na estrutura das comunidades, para diferenciar os rios mais e menos afetados pela ação humana. Assim, o estudo consistiu de uma coleta de amostras biológicas, análises de uso e cobertura do solo com base em imagens de satélite e análises estatísticas feitas em computador.
A equipe selecionou oito rios costeiros entre Itacaré e Una (Bahia), organizados em zona norte e zona sul. Cada rio teve dois pontos de coleta definidos, em áreas sem influência de maré, com dois pontos de coleta por rio. Em cada local, os cientistas usaram puçás para recolher amostras contendo as espécies. As coletas ocorreram entre 2015 e 2017, com dois períodos de seca (dezembro de 2015 e abril de 2016) e dois períodos chuvosos (dezembro de 2016 e abril de 2017). As espécies coletadas em cada etapa foram identificadas de acordo com a literatura científica e depositadas em coleção científica institucional.
Já a parte de análise de uso e cobertura do solo usou imagens do satélite Landsat 8. Os cientistas consideraram dez classes de uso do solo e cobertura vegetal, como floresta, pastagem, área urbana, agricultura, dentre outras. As imagens permitiram comparar a situação entre 2015 e 2016.
Esses dados das etapas anteriores foram então analisados com uso de programas de computador para análise estatística. Assim, diferentes análises multivariadas ajudaram a entender as variações nas estruturas das comunidades, diferenças entre períodos secos e chuvosos e níveis de impacto. Além disso, foi possível saber quais espécies eram responsáveis pelas diferenças entre as comunidades analisadas. Essa combinação de etapas de pesquisa integrou dados biológicos, sazonais e espaciais.