Bahia, 21 de Outubro de 2019
Por: TEONEY GUERRA
09/10/2019 - 14:36:07

Gamelas e pratos de madeira, colheres de pau e outras peças de adorno para residências,  geralmente  vendidas  em  pequenas  barracas,  nas  margens  das rodovias   federais   ou   em   pontos   turísticos,   e   consideradas   peças   de “artesanato”, fazem parte do que os gestores do Parque Nacional do Pau Brasil (Parna  Pau-Brasil)  denominam  de  “industrianato”,  ou  seja,  uma  indústria  de fundo de quintal criminosa, camuflada como artesanato.
Não  há  dados  sobre  a  quantidade  de  peças  produzidas  e  vendidas,  nem  o volume de dinheiro que movimenta esse mercado ilegal na nossa região. Mas, segundo conseguimos apurar, só na Costa do Descobrimento esses pontos de vendas de “industrianato”, podem chegar a três centenas, que vendem dezenas de milhares de peças por mês.
“Essa atividade é fruto de roubo”, afirma Lauro Henrique de Paiva JR, analista ambiental e responsável pela fiscalização da área do Parna Pau-Brasil.
O  servidor  público  que  pertence  aos  quadros  do  ICMBio,  órgão  responsável pela administração e fiscalização do parque, afirma que esses “roubos” são praticados  quase  sempre  à  noite,  alta  madrugada,  o  que  praticamente impossibilita uma ação impeditiva. Além disso, não há uma equipe que possa fazer um trabalho preventivo contra essa ação criminosa. Ele, Lauro, é o chefe da fiscalização e único servidor do setor, responsável pela fiscalização de uma área de quase 20 mil hectares – cerca de 20 mil campos de futebol. Por isso, para  fazer  a  fiscalização,  geralmente  se  conta  com  o  apoio  de  um  ou  dois brigadistas,  empregados  terceirizados,  a  quem  cabe  combater  incêndios. “Contamos também com o apoio da Cipa Mata Atlântica, que faz um excelente trabalho,  nos  auxiliando,  quando  solicitamos,  mas  isso  não  é  o  suficiente”, expõe o servidor, que reclama a presença de outros órgãos nesse trabalho de prevenção e repressão aos crimes ambientais.
Segundo ele, um trabalho muito eficiente poderia ser realizado pela Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia (Sefaz), que, fazendo simples fiscalizações, poderia combater de forma efetiva essa exploração criminosa da mata nativa. Lauro explica que a Sefaz pode fiscalizar periodicamente os locais de revenda desse falto artesanato e exigir dos seus proprietários a apresentação das notas fiscais da madeira, matéria prima desse “industrianato”. “E eles não vão ter notas fiscais para apresentar, assim, essas peças podem ser apreendidas”.
O servidor do Parna Pau-Brasil acredita também que, não comprando esses produtos, a própria população pode dar uma importante colaboração para a preservação do que resta da mata atlântica.
 
Na conversa com os gestores do parque, que então se restringia aos crimes ambientais   cometidos   pelos   “brancos”,   foi   levantado   outro   aspecto:   a exploração  da  mata  atlântica,  também  para  a  confecção  desse  suposto artesanato, pelos Pataxó, etnia que vive em toda a faixa litorânea da Costa do Descobrimento.  O  que,  na  nossa  visão,  era  permitida  pela  legislação.  Os indígenas também o fabricam e o vendem, explorando madeira nas áreas que lhes são destinadas para viverem. Perguntado se os remanescentes dos primeiros  habitantes  daqui  têm  esse  direito,  o  gestor  do  parque,  Fábio  Faraco, respondeu que: “toda área indígena é criada para que eles mantenham, segundo a lei,  seus  modos  de  vida  tradicionais;  suas  tradições.  Mas  eu  nunca  soube,  em nenhum  livro  que  li,  que  índio  vendesse  artesanato;  não  faz  parte  da  tradição indígena, vender artesanato”. Para ele, portanto, os pataxós também cometem o mesmo crime ambiental dos não indígenas.
Danos – Os danos causados por essa atividade são imensos e irreparáveis, causados nas áreas do litoral brasileiro em que ainda existe mata atlântica, e têm  como  alvos  principais  as  denominadas  madeiras-de-lei,  as  madeiras nobres, em especial, o pau-brasil e o jacarandá-da-bahia. “Quem observa bem esse  industrianto  vê  que  ele  está  ficando  cada  vez  mais  branco,  porque  estão começando a pegar as madeiras brancas –de menor valor -, em razão das madeiras-de-lei estarem acabando”, diz Lauro, que afirma haver uma estimativa da ONG,  SOS Mata Atlântica, que dá conta de que esse industrianato é responsável por derrubar mais de 100 árvores por dia na mata atlântica.
Visando dar uma noção do estrago que esse falso artesanato causa na mata nativa, o fiscal do ICMBio mostrou à reportagem como é feita uma gamelinha*, a principal peça do “industrianato”. Como mostra uma das fotos que ilustram essa matéria, a gamelinha é feita de um pedaço do tronco de uma árvore, quase sempre, madeira-de-lei, e durante sua confecção, mais de 60% do tronco são jogados fora. E o mais impressionante é que, para se fabricar essas peças, de uma forma geral, se corta árvores com idade em torno de 200 a 300 anos. E com o tronco de uma árvore assim, se fabrica em média, apenas 15 a 20 dessas “malditas gamelinhas”, como diz o fiscal.

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